Affff, e eu que pensei que ia ter de enrolar neste diário enquanto estivesse aqui en Rauch que, afinal, é uma cidadezinha pacata onde nada acontece. Nada o quê!
Ontem de noite, uma galera me convidou para ir ao Castillo, o castelo, que é como conhecem aqui uma mansao imensa, com tres andares e 77 aposentos, no meio da pampa, abandonada há anos. Fpi construída em 1918, e dizem que a primeira família que morou aí abandonou o lugar de repente, deixando tudo para trás, depois que um dos membros morreu. Dècadas depois, a mansao foi transformada em reformatório, mas a instituicao foi fechada depois que um dos internos assassinou um dos professores.
Meus amigos ficaram de me pegar às oito da noite, apareceram às nove e meia e estivemos perdidos pelas estradas da regiao até quase as onze. Finalmente encontramos o caminho no meio do bosque que levava al castelo, que iluminado pela imensa lua cheia que brilhava num céu limpo e estrelado. Incrível.
Entramos com velas, lanternas e um lampiao que, frente ao protesto de algumas meninas, foi apagado pra dar mais clima. Corujas (suindaras, também conhecidas como rasga-mortalha) voavam por cima do castelo enchendo a noite de griots arrepiantes. Em muitas salas, a luz da lanterna perturbava colonias inteiras de morcegos que revovavam assustados. A casa está aos pedacos, já náo tem vidros, em alguns pontos o teto está caindo e o assoalho idem. Paredes pichadas por levas e levas de babacas, em alguns lugares parecendo uma versáo tosca do Kama Sutra. Nao me animei a subir as escadas, embora as janelas dos andares superiores prometessem uma paisagem maravilhosa. Tirei algumas fotos, mas nao sei se alguma vai sair, pois nao conheco bem a camera recám-comprada. Depois de explorar a mansao e uma parte do bosque que a circunda (e que aqui se chama monte), nos sentamos e ficamos um bom tempo mateando (tomando chimarrao) e falando bobagens. Contei a todos o que significava "abobrinha" em paulistanês, e entao batizamos aquela hora, meia-noite passada, de La hora del zapallo (a hora da abóbora). Era mais de duas da manha quando finalmente voltei pra casa. Estávamos todos maravilhados com a aventura.
Alguns detalhes pitorescos desta cidadezinha perdida no meio da pampa: a quantidade de sapos atropelados pelas ruas. Como a cidade é muito plana, todos usam bicicletas, amigas pedalam lado a lado, de maos dadas, e namorados conseguem pedalar abracados, cada um na sua! Você tem de cumprimentar TODO MUNDO quando anda na rua; as formulas mais aceitas sao adiós, chau, hola que tal, buen dia, benas tardes, como le va. A siesta dura do meio dia às quatro da tarde, mas em compensacao as lojas ficam abertas até as dez da noite. Todos que me conhecem dizem, invariavelmente "Brasil, ¡ ay, que lindo! Me encanta."
É isso aí. Espero que por aì esteja fazendo o mesmo calor que aqui (para eu nao estar sofrendo sozinha!)
Beijos e queijos
Martha Argel
quinta-feira, 8 de janeiro de 2004
quarta-feira, 7 de janeiro de 2004
Buenos dias.
Ontem de noite. Lua cheia, fantasmagòrica através de um véu diáfano de umidade suspensa no céu, e mesmo assim iluminando tudo. Voltando pra casa depois de uma noitada com duas novas amigas, Anita e Eli. Ruas vazias. Calçadas amplas e gramadas, e de ambos os lados casas antigas, muito altas e sem recuo, geminadas. Por algum motivo, muitas das ruas estavam escuras, sem a iluminaçao viária. Chegando à esquina da igreja, as duas queriam continuar pela mesma rua, que tinha luz, mas eu as convenci a dobrar à direita, numa rua escura que margeava o jardim atrás da igreja. As árvores altas e esgalhadas formavam um túnel de vegetaçao que amortecia a luz da lua.
Íamos as três comentando que cenário mais perfeito para um vampiro, imaginando até onde ele apareceria, no alto das construçoes velhìssimas. Entao eu mostrei a elas um banco, sob as árvores da praça, bem nos fundos da igreja, e lhes contei que durante a tarde, havia conhecido ali um rapaz que estava tirando uma foto no mesmo angulo que eu tirara no dia anterior. Nesse exato momento, os sinos da igreja começam a tocar a meia noite! E entao a Anita olha o banco e dá um grito "Tem uma luzinha ali!". E nao é que tinha mesmo??? Alcancei a vê-la, um olho vermelho na escuridao, antes que desaparecesse. Começamos a rir, nervosas, e entao ela diz "e para completar, sabem que um tempo atrás um garoto se suicidou naquele banco?". Nos entreolhamos e continuamos andando. Cheguei em casa, me despedi delas e dormi como uma pedra.
Hoje o dia está feio e nublado. Saio daqui do cyber e vou para um cafè escrever um pouco. Tenho uma idèia, quem sabe sai um conto...
Ah, saiu uma entrevista comigo no site Alan Moore, senhor do caos. Façam uma visita. Tem umas fotos inèditas.
Beijos a todos
Martha Argel,
uma vampira em Rauch
Ontem de noite. Lua cheia, fantasmagòrica através de um véu diáfano de umidade suspensa no céu, e mesmo assim iluminando tudo. Voltando pra casa depois de uma noitada com duas novas amigas, Anita e Eli. Ruas vazias. Calçadas amplas e gramadas, e de ambos os lados casas antigas, muito altas e sem recuo, geminadas. Por algum motivo, muitas das ruas estavam escuras, sem a iluminaçao viária. Chegando à esquina da igreja, as duas queriam continuar pela mesma rua, que tinha luz, mas eu as convenci a dobrar à direita, numa rua escura que margeava o jardim atrás da igreja. As árvores altas e esgalhadas formavam um túnel de vegetaçao que amortecia a luz da lua.
Íamos as três comentando que cenário mais perfeito para um vampiro, imaginando até onde ele apareceria, no alto das construçoes velhìssimas. Entao eu mostrei a elas um banco, sob as árvores da praça, bem nos fundos da igreja, e lhes contei que durante a tarde, havia conhecido ali um rapaz que estava tirando uma foto no mesmo angulo que eu tirara no dia anterior. Nesse exato momento, os sinos da igreja começam a tocar a meia noite! E entao a Anita olha o banco e dá um grito "Tem uma luzinha ali!". E nao é que tinha mesmo??? Alcancei a vê-la, um olho vermelho na escuridao, antes que desaparecesse. Começamos a rir, nervosas, e entao ela diz "e para completar, sabem que um tempo atrás um garoto se suicidou naquele banco?". Nos entreolhamos e continuamos andando. Cheguei em casa, me despedi delas e dormi como uma pedra.
Hoje o dia está feio e nublado. Saio daqui do cyber e vou para um cafè escrever um pouco. Tenho uma idèia, quem sabe sai um conto...
Ah, saiu uma entrevista comigo no site Alan Moore, senhor do caos. Façam uma visita. Tem umas fotos inèditas.
Beijos a todos
Martha Argel,
uma vampira em Rauch
terça-feira, 6 de janeiro de 2004
¡Hola, amigos!
A pròxima etapa da viagem já està decidida. Havia um problema de passagens, e sò viajo no sábado. O destino é patagônico. Depois conto qual é.
A grande novidade é que estou gripada. Certeza absoluta de que foi a fulana no ônibus que tossiu de BsAs a Rauch, non-stop, quem me contaminou. Estou quebrada, me mantendo em movimento à base de paracetamol.
Agenda sempre lotada. Sendo a ùnica estrangeira da cidade, todos me conhecem e nao conheço ninguèm. Constrangedor. O que mais escuto é "COMO você nao se lembra de mim???". Estou me desincumbido com muita perseverança da agenda de visitas a parentes e amigos. É divertido, o unico problema é que todos me fazem tomar mate, que é o principal ritual de contato que há por aqui. Em vez de tomar um cafezinho, você compartilha a a bombilla (bomba) e o mate (cuia) com as pessoas com quem está socializando. Tem toda uma série de regras pra preparar a bebida, organizar a rodada, aceitar ou recusar o mate quando chega a sua vez. E qual o problema do mate? Para mim é terrivelmente diurético. Fora isso, beleza, seja doce seja amargo.
Ontem vi pela televisao uma serie argentina es-pe-ta-cu-lar, "Los Simuladores". Foi o ùltimo episòdio da segunda e ùltima temporada. Um grupo de quatro pessoas dedica-se a simular situacoes para resolver problemas das pessoas ou para sacanear alguém a pedido de algum interessado. Hilariante, pois as simulacoes sao extremamente complexas e carìssimas, com intuitos quase sempre muito banais. Ontem, numa das simulacoes, montaram um esquema carìssimo, com aluguel de um grande hotel, barcos, avioes, helicopteros e dezenas de pessoas, só pra fazer um yuppizinho, largar mao de ser besta e ir passar o natal com a família. De chorar de rir a seriedade como a encenacao foi feita, uma verdadeira operacao de espionagem, só pra enternecer o coracao do sujeito. Amei amei amei. Os atores fantásticos, uma inteligencia e um humor absolutamente perfeitos. Por que nao fazem coisas assim no Brasil?!
É isso aí. Continua o calor, a cidade continha parecendo um cenário de filme e estou atrasada para o almoço com uma amiga divertidíssima.
Beijos a todos, divirtam-se e faça a vida valer a pena.
Martha Argel,
em ritmo de férias (apesar da gripe)
A pròxima etapa da viagem já està decidida. Havia um problema de passagens, e sò viajo no sábado. O destino é patagônico. Depois conto qual é.
A grande novidade é que estou gripada. Certeza absoluta de que foi a fulana no ônibus que tossiu de BsAs a Rauch, non-stop, quem me contaminou. Estou quebrada, me mantendo em movimento à base de paracetamol.
Agenda sempre lotada. Sendo a ùnica estrangeira da cidade, todos me conhecem e nao conheço ninguèm. Constrangedor. O que mais escuto é "COMO você nao se lembra de mim???". Estou me desincumbido com muita perseverança da agenda de visitas a parentes e amigos. É divertido, o unico problema é que todos me fazem tomar mate, que é o principal ritual de contato que há por aqui. Em vez de tomar um cafezinho, você compartilha a a bombilla (bomba) e o mate (cuia) com as pessoas com quem está socializando. Tem toda uma série de regras pra preparar a bebida, organizar a rodada, aceitar ou recusar o mate quando chega a sua vez. E qual o problema do mate? Para mim é terrivelmente diurético. Fora isso, beleza, seja doce seja amargo.
Ontem vi pela televisao uma serie argentina es-pe-ta-cu-lar, "Los Simuladores". Foi o ùltimo episòdio da segunda e ùltima temporada. Um grupo de quatro pessoas dedica-se a simular situacoes para resolver problemas das pessoas ou para sacanear alguém a pedido de algum interessado. Hilariante, pois as simulacoes sao extremamente complexas e carìssimas, com intuitos quase sempre muito banais. Ontem, numa das simulacoes, montaram um esquema carìssimo, com aluguel de um grande hotel, barcos, avioes, helicopteros e dezenas de pessoas, só pra fazer um yuppizinho, largar mao de ser besta e ir passar o natal com a família. De chorar de rir a seriedade como a encenacao foi feita, uma verdadeira operacao de espionagem, só pra enternecer o coracao do sujeito. Amei amei amei. Os atores fantásticos, uma inteligencia e um humor absolutamente perfeitos. Por que nao fazem coisas assim no Brasil?!
É isso aí. Continua o calor, a cidade continha parecendo um cenário de filme e estou atrasada para o almoço com uma amiga divertidíssima.
Beijos a todos, divirtam-se e faça a vida valer a pena.
Martha Argel,
em ritmo de férias (apesar da gripe)
segunda-feira, 5 de janeiro de 2004
oi, todos!
Ainda em Rauch, ainda sol forte lá fora. Tô mais preta do que já estive nos ultimos dez anos. Irônico que uma criatura tropical tenha que baixar para zona temperada para se amoldar ao estereótipo, qual seja, o da brasileira morena.
Ontem, à beira da piscina, me transformei em embaixadora da cultura brasileira. Fui sabatinada: mercosul, Lula e Kirschner, conjuntura sócio-econômica. Temas amenos. A conferência de hoje já está marcada, mesmo lugar (desde que nao chova!!!), mesmos trajes (a náo ser que compre um maiô novo), mesma platèia (mas parece que vai ter mais gente). E vejam sò: me pediram pra levar meus livros porque há interessados em comprá-lo!! Eita, estou lançando minha carreira de escritora internacional.
E, de noite, fui ao festival da cidade. Me diverti muito: cantores, conjuntos, dança. O que me emocionou foi o grupo de cultura basca -- vocês sabem, meu Argel é basco-francês. Tenho um carinho imenso por essa parte de minha história familiar. Tirei foto com a bandeira euskera e tudo. Ah, e um dos integrantes do conjunto era um show à parte, um jovem loiro com quase dois metros de altura, de babar e que, ainda por cima, dançava de uma forma epetacular. Depois, meninas, mostro a foto...
Quase definido um novo roteiro de viagem. Preciso checar os horàrios. Aliás, enquanto estou aqui no cyber, chega un rapaz com uma notìcia que me arrepiou: agora de manha aconteceu um acidente com um ônibus de La Estrella, na Ruta 30. A estrada e a empresa de ônibus que tomei para chegar aqui. O motorista do ônibus morreu no choque. Um segredo: nunca viajo nos primeiros lugares do ônibus, sempre no meio. Just in case.
besos a todos, cariños y hasta mañana!
Martha Argel
Ainda em Rauch, ainda sol forte lá fora. Tô mais preta do que já estive nos ultimos dez anos. Irônico que uma criatura tropical tenha que baixar para zona temperada para se amoldar ao estereótipo, qual seja, o da brasileira morena.
Ontem, à beira da piscina, me transformei em embaixadora da cultura brasileira. Fui sabatinada: mercosul, Lula e Kirschner, conjuntura sócio-econômica. Temas amenos. A conferência de hoje já está marcada, mesmo lugar (desde que nao chova!!!), mesmos trajes (a náo ser que compre um maiô novo), mesma platèia (mas parece que vai ter mais gente). E vejam sò: me pediram pra levar meus livros porque há interessados em comprá-lo!! Eita, estou lançando minha carreira de escritora internacional.
E, de noite, fui ao festival da cidade. Me diverti muito: cantores, conjuntos, dança. O que me emocionou foi o grupo de cultura basca -- vocês sabem, meu Argel é basco-francês. Tenho um carinho imenso por essa parte de minha história familiar. Tirei foto com a bandeira euskera e tudo. Ah, e um dos integrantes do conjunto era um show à parte, um jovem loiro com quase dois metros de altura, de babar e que, ainda por cima, dançava de uma forma epetacular. Depois, meninas, mostro a foto...
Quase definido um novo roteiro de viagem. Preciso checar os horàrios. Aliás, enquanto estou aqui no cyber, chega un rapaz com uma notìcia que me arrepiou: agora de manha aconteceu um acidente com um ônibus de La Estrella, na Ruta 30. A estrada e a empresa de ônibus que tomei para chegar aqui. O motorista do ônibus morreu no choque. Um segredo: nunca viajo nos primeiros lugares do ônibus, sempre no meio. Just in case.
besos a todos, cariños y hasta mañana!
Martha Argel
domingo, 4 de janeiro de 2004
Hola todos!
Ontem: o calor infernal prometido para Buenos Aires nao se concretizou, mas mesmo assim estava quente e abafado. Voltei a Florida para mais vitrines e namoricos com tudo o que possam imaginar. Um ataque de consumismo mais do que violento. Que acabou da forma mais previsìvel: a aquisiçao de novos livros de vampiros. Já sao sete.
O almoço foi num shopping, um bife de chorizo (traduzindo: um puta filezao) de babar, com salada, e de sobremesa um alfajor Havana.
À tarde, tomei um onibus, daqueles double-deckers altos, superconfortáveis, rumo a Rauch, a cidade onde vive minha família. Atravessar a pampa ao pôr-do-sol, a paisagem totalmente plana, e ver as aves aquáticas às dúzias nos milhares de banhados, lagoas, brejos e sangas, tem gosto de infância. Quando era pequena, meus veroes eram passados nessa cidade tao linda e organizadas que parece um cenario de filme.
Cheguei às 10 da noite e nem bem deixei as malas na casa de minha prima, saímos de festa: cheguei justo para a feira de artesanato e folclore. A cidade toda estava lá, se divertindo, fazendo compras, vendo e sendo vista. É outro mundo, com suas regras e ritmos próprios, e mergulhei de cabeça nele. É como se nunca tivesse saído daqui. Fazia três anos que nao vinha Rauch. É como voltar pra casa.
Hoje: sol forte, calor sufocante. Saí para caminhar de manhazinha. Ruas largas, vazias, orladas de plátanos velhíssimos e casa antigas. Jardins floridos, fora da cidade, gramados ensolarados, recobertos por florzinhas amarelas.
Já náo sei exatamente como prosseguirá minha viagem. Surgiram algumas alternativas interessantes, vou tentar decidir hoje.
Para a tarde, a programacao é pegar uma piscina no clube local, e começar um curso intensivo de portugues & cultura brasileira para minha prima Mirta, que está concorrendo a uma vaga num curso de um mês em Brasìlia.
Parece que já faz um mês que saì do Brasil. Esquisito, isso. Nunca me acostumo com o ritmo diferente com que o tempo transcorre nas viagens.
Cariños a todos
Martha Argel
uma vampira na pampa ensolarada
Ontem: o calor infernal prometido para Buenos Aires nao se concretizou, mas mesmo assim estava quente e abafado. Voltei a Florida para mais vitrines e namoricos com tudo o que possam imaginar. Um ataque de consumismo mais do que violento. Que acabou da forma mais previsìvel: a aquisiçao de novos livros de vampiros. Já sao sete.
O almoço foi num shopping, um bife de chorizo (traduzindo: um puta filezao) de babar, com salada, e de sobremesa um alfajor Havana.
À tarde, tomei um onibus, daqueles double-deckers altos, superconfortáveis, rumo a Rauch, a cidade onde vive minha família. Atravessar a pampa ao pôr-do-sol, a paisagem totalmente plana, e ver as aves aquáticas às dúzias nos milhares de banhados, lagoas, brejos e sangas, tem gosto de infância. Quando era pequena, meus veroes eram passados nessa cidade tao linda e organizadas que parece um cenario de filme.
Cheguei às 10 da noite e nem bem deixei as malas na casa de minha prima, saímos de festa: cheguei justo para a feira de artesanato e folclore. A cidade toda estava lá, se divertindo, fazendo compras, vendo e sendo vista. É outro mundo, com suas regras e ritmos próprios, e mergulhei de cabeça nele. É como se nunca tivesse saído daqui. Fazia três anos que nao vinha Rauch. É como voltar pra casa.
Hoje: sol forte, calor sufocante. Saí para caminhar de manhazinha. Ruas largas, vazias, orladas de plátanos velhíssimos e casa antigas. Jardins floridos, fora da cidade, gramados ensolarados, recobertos por florzinhas amarelas.
Já náo sei exatamente como prosseguirá minha viagem. Surgiram algumas alternativas interessantes, vou tentar decidir hoje.
Para a tarde, a programacao é pegar uma piscina no clube local, e começar um curso intensivo de portugues & cultura brasileira para minha prima Mirta, que está concorrendo a uma vaga num curso de um mês em Brasìlia.
Parece que já faz um mês que saì do Brasil. Esquisito, isso. Nunca me acostumo com o ritmo diferente com que o tempo transcorre nas viagens.
Cariños a todos
Martha Argel
uma vampira na pampa ensolarada
sexta-feira, 2 de janeiro de 2004
¡Hola, todos!
Cà estou, mi Buenos Aires queriiiiido. Calor, muito mais do que em Sampa. O ventilador de teto parece que vai despecar sobre minha cabeça a qualquer minuto, mas è isso ou morrer assada.
A viagem foi assim: cheguei horas antes ao aeroporto, que a gente paulista vèio chama de Cumbica e o resto do mundo de Guarulhos. Enquanto esperava interminavelmente a hora do embarque, fiquei ouvindo o papo de dois caras, hispânicos de sotaque nào reconhecìvel. Um tinha passado o reveillon na Paulista, o outro em Copacabana. Ambos deslumbrados com a ordem e a segurança do Brasil. E eu sem entender nada. Aì ouvi a chamada para um vôo com destino ao Panamà. Os dois levantaram e foram. Entào saquei: eram mexicanos! Se tem uma cidade que consegue ser pior do que Sampa e Río em segurança, trânsito e caos urbano, è a Cidade do Mèxico. Eles devem ter achado o Brasil um paraìso!
No aviào, conheci a Francisca. Acreana, trabalhou com o Chico Mendes, e hà anos mora em Assis, na Itàlia. Acabei com um convite para ir visità-la.
Entre o free-shop e o embarque, descobri que a màquina fotografica tinha simplesmente morrido. Chegando a Buenos Aires, qual foi a primeira coisa que fiz? Claaaaro, gastei uma nota preta numa màquina. Jà comecei bem a viagem: nem 15 minutos em solo estrangeiro e estourei o orçamento.
Dica para quem vier à Argentina: NÂO troquem dinheiro na primeira casa de cämbio depois da aduana; eles pagam MUITO MENOS do que as outras. Troque no Banco de La Naciòn Argentina, como eu fiz, ou deixe para trocar na cidade. Aliàs, se eu tivesse trazido reais, e náo dòlares, teria me dado bem. Mas tudo bem, fiz um cämbio bom.
Peguei o bus pra cidade e consegui um lance legal, me deixaram bem na porta do prèdio do meu amigo Chendo. Cheguei, me instalei, pusemos algumas ornitofofocas em dia e aì saìmos para passear em Florida. Conhecem? A melhor rua de compras da America do Sul. Eu me prometi que náo ia comprar nenhum livro, e como resultado sò comprei seis (quatro deles de vampiros!).
À noite, saìmos pra jantar. Pasta y vino. Massa e vinho. Tô zonza e estufada. Voltamos caminhando por Florida. Onze da noite, turistas passeando e atè lojas abertas.
Antes que eu me esqueça: Buenos Aires è o segundo paìs do mundo em termos de homens bonitos. Sò perde para a Itàlia. Meninas, venham babaaaaar aquí!
Por enquanto è isso. Amanhá continuo minha jornada rumo sul, e embarco para uma cidadezinha a quatro horas de viagem, perdida no meio da pampa.
Besos a todos
Martha Argel,
uma vampira em Buenos Aires
Cà estou, mi Buenos Aires queriiiiido. Calor, muito mais do que em Sampa. O ventilador de teto parece que vai despecar sobre minha cabeça a qualquer minuto, mas è isso ou morrer assada.
A viagem foi assim: cheguei horas antes ao aeroporto, que a gente paulista vèio chama de Cumbica e o resto do mundo de Guarulhos. Enquanto esperava interminavelmente a hora do embarque, fiquei ouvindo o papo de dois caras, hispânicos de sotaque nào reconhecìvel. Um tinha passado o reveillon na Paulista, o outro em Copacabana. Ambos deslumbrados com a ordem e a segurança do Brasil. E eu sem entender nada. Aì ouvi a chamada para um vôo com destino ao Panamà. Os dois levantaram e foram. Entào saquei: eram mexicanos! Se tem uma cidade que consegue ser pior do que Sampa e Río em segurança, trânsito e caos urbano, è a Cidade do Mèxico. Eles devem ter achado o Brasil um paraìso!
No aviào, conheci a Francisca. Acreana, trabalhou com o Chico Mendes, e hà anos mora em Assis, na Itàlia. Acabei com um convite para ir visità-la.
Entre o free-shop e o embarque, descobri que a màquina fotografica tinha simplesmente morrido. Chegando a Buenos Aires, qual foi a primeira coisa que fiz? Claaaaro, gastei uma nota preta numa màquina. Jà comecei bem a viagem: nem 15 minutos em solo estrangeiro e estourei o orçamento.
Dica para quem vier à Argentina: NÂO troquem dinheiro na primeira casa de cämbio depois da aduana; eles pagam MUITO MENOS do que as outras. Troque no Banco de La Naciòn Argentina, como eu fiz, ou deixe para trocar na cidade. Aliàs, se eu tivesse trazido reais, e náo dòlares, teria me dado bem. Mas tudo bem, fiz um cämbio bom.
Peguei o bus pra cidade e consegui um lance legal, me deixaram bem na porta do prèdio do meu amigo Chendo. Cheguei, me instalei, pusemos algumas ornitofofocas em dia e aì saìmos para passear em Florida. Conhecem? A melhor rua de compras da America do Sul. Eu me prometi que náo ia comprar nenhum livro, e como resultado sò comprei seis (quatro deles de vampiros!).
À noite, saìmos pra jantar. Pasta y vino. Massa e vinho. Tô zonza e estufada. Voltamos caminhando por Florida. Onze da noite, turistas passeando e atè lojas abertas.
Antes que eu me esqueça: Buenos Aires è o segundo paìs do mundo em termos de homens bonitos. Sò perde para a Itàlia. Meninas, venham babaaaaar aquí!
Por enquanto è isso. Amanhá continuo minha jornada rumo sul, e embarco para uma cidadezinha a quatro horas de viagem, perdida no meio da pampa.
Besos a todos
Martha Argel,
uma vampira em Buenos Aires
quarta-feira, 31 de dezembro de 2003
Último post do ano. Vi por aí, nos blogs, gente fazendo as habituais retrospectivas do que aconteceu ao longo do ano. Como é que elas conseguem? No meu ano acontecem tantas coisas que sou incapaz de fazer um resumo. Talvez elas passem o ano inteiro tomando notas, pensando já na elaboração de seu relatório anual. Affff, tô fora.
Mas vou tentar fazer uma retrospectiva dos últimos dias, incluindo eventos escolhidos de forma totalmente aleatória.
Coisas que rastejam de noite: noite dessas, enquanto estava no banheiro, luz apagada e sem óculos, como é meu hábito, senti algo fazendo cócegas no dorso do pé. Achei que era o cinto do roupão, pendurado na parede, mas pelas dúvidas corri pôr os óculos e acendi a luz. Argh. Era uma barata que tinha tentado subir no meu pé!
El perro volador: dia 25, Thor, meu pitpulga, no entusiasmo de latir pra um cachorro que passava, caiu da varanda. Três metros de altura. Meu coração ficou miudinho quando vi o bichinho lá embaixo na rua, encolhido, babando e cercado de sangue. Depois de muito examinar, o diagnóstico: duas unhas quebradas nas patas de trás. Já tá zero bala. Quem me deu a maior força foi a Wyrm, que é veterinária. Liguei pra ela e ela foi dando todas as instruções. VALEU, WYRM, AMIGA DO CORAÇÃO!
Transpiros ou vampestis?: ontem de madrugada, ação policial na frente de casa. Quatro viaturas pararam um táxi levando três travestis que tinham assaltado um rapaz. Os travestis mais medonhos que já vi na vida, diga-se de passagem. De repente, um policial de lanterna vai até a vítima, afasta o colarinho e examina seu pescoço, de um lado e de outro; o rapaz até inclinava a cabeça para colaborar. Fiquei pasma. Igualzinho filme de Drácula! Travestis... vampiros?! Depois, quando o policial examinou também as costas do cara, entendi: ele tinha sido agredido pelas moçoilas... a unhadas!!! Vixe, cada coisa que acontece...
Temível predador: numa de minhas caminhadas matutinas, uma cena insólita. No meio da rua três pombos comendo quaisquer que sejam as porcarias que pombos comem, e muito agachadinho, na tocaia, um gato amarelo, daqueles gatos adolescentes, magrelos, pernudos e tontos, crente de que suas presas não o viam. De repente ele dava uma corridinha, rastejante, rumo às aves, e elas, sem se abalar, simplesmente andavam um pouquinho mais pra frente, mantendo a distância. E o gatolo lá, lambendo os beiços e se achando uma temível fera das selvas.
Produtividade: acabei hoje de escrever um conto. 16 páginas, o mais longo que já escrevi. Há três anos e meio não escrevia uma ficção científica. Termino feliz o ano.
Moluscos de Natal: na noite de Natal, teve comilança, sim, senhor. Mas teve também um documentário sobre a vida sexual das lulas gigantes. Fascinante. Gosto de biólogo não se discute, ok?
Año Nuevo, libros y alfajores: depois de amanhã a estas horas, estarei batendo perna por Florida, a rua mais agitada de Buenos Aires, provavelmente fazendo compras ou tomando algo num café. A capital portenha é uma das poucas cidades do mundo onde você pode comprar livros à uma da manhã. Os habitantes locais vão dormir tão tarde que provavelmente o estilo de vida de um vampiro passaria totalmente despercebido!
É isso aí, amigos. Pra todos um FELIZ ANO NOVO. E acompanhem aqui, a partir de 2 de janeiro, a crônica on-line de minha viagem rumo à Patagônia!
Besos y quesos y hasta pronto!
Martha Argel
Mas vou tentar fazer uma retrospectiva dos últimos dias, incluindo eventos escolhidos de forma totalmente aleatória.
Coisas que rastejam de noite: noite dessas, enquanto estava no banheiro, luz apagada e sem óculos, como é meu hábito, senti algo fazendo cócegas no dorso do pé. Achei que era o cinto do roupão, pendurado na parede, mas pelas dúvidas corri pôr os óculos e acendi a luz. Argh. Era uma barata que tinha tentado subir no meu pé!
El perro volador: dia 25, Thor, meu pitpulga, no entusiasmo de latir pra um cachorro que passava, caiu da varanda. Três metros de altura. Meu coração ficou miudinho quando vi o bichinho lá embaixo na rua, encolhido, babando e cercado de sangue. Depois de muito examinar, o diagnóstico: duas unhas quebradas nas patas de trás. Já tá zero bala. Quem me deu a maior força foi a Wyrm, que é veterinária. Liguei pra ela e ela foi dando todas as instruções. VALEU, WYRM, AMIGA DO CORAÇÃO!
Transpiros ou vampestis?: ontem de madrugada, ação policial na frente de casa. Quatro viaturas pararam um táxi levando três travestis que tinham assaltado um rapaz. Os travestis mais medonhos que já vi na vida, diga-se de passagem. De repente, um policial de lanterna vai até a vítima, afasta o colarinho e examina seu pescoço, de um lado e de outro; o rapaz até inclinava a cabeça para colaborar. Fiquei pasma. Igualzinho filme de Drácula! Travestis... vampiros?! Depois, quando o policial examinou também as costas do cara, entendi: ele tinha sido agredido pelas moçoilas... a unhadas!!! Vixe, cada coisa que acontece...
Temível predador: numa de minhas caminhadas matutinas, uma cena insólita. No meio da rua três pombos comendo quaisquer que sejam as porcarias que pombos comem, e muito agachadinho, na tocaia, um gato amarelo, daqueles gatos adolescentes, magrelos, pernudos e tontos, crente de que suas presas não o viam. De repente ele dava uma corridinha, rastejante, rumo às aves, e elas, sem se abalar, simplesmente andavam um pouquinho mais pra frente, mantendo a distância. E o gatolo lá, lambendo os beiços e se achando uma temível fera das selvas.
Produtividade: acabei hoje de escrever um conto. 16 páginas, o mais longo que já escrevi. Há três anos e meio não escrevia uma ficção científica. Termino feliz o ano.
Moluscos de Natal: na noite de Natal, teve comilança, sim, senhor. Mas teve também um documentário sobre a vida sexual das lulas gigantes. Fascinante. Gosto de biólogo não se discute, ok?
Año Nuevo, libros y alfajores: depois de amanhã a estas horas, estarei batendo perna por Florida, a rua mais agitada de Buenos Aires, provavelmente fazendo compras ou tomando algo num café. A capital portenha é uma das poucas cidades do mundo onde você pode comprar livros à uma da manhã. Os habitantes locais vão dormir tão tarde que provavelmente o estilo de vida de um vampiro passaria totalmente despercebido!
É isso aí, amigos. Pra todos um FELIZ ANO NOVO. E acompanhem aqui, a partir de 2 de janeiro, a crônica on-line de minha viagem rumo à Patagônia!
Besos y quesos y hasta pronto!
Martha Argel
sábado, 20 de dezembro de 2003
Bons dias. O Natal se aproxima, tenebroso: fim de ano, fim de fôlego, balanço do que deu errado, perspectivas inquietantes. No fundo, no fundo, não dá pra sentir nenhum clima de festa. As pessoas estão exaustas e sabem que o descanso (pouco) será insuficiente pra agüentar o país de 2004.
O fim da infância
Nesta nossa era de adultescência hiperprolongada, a maturidade vem aos poucos, principalmente pra quem é como eu, profissional liberal do gênero feminino, descasada, sem filhos e aspirante a uma vida econômica próspera o suficiente para garantir ao menos a grana pro asilo na velhice. Eventos únicos marcam esse processo: a morte do pai, o casamento, a separação, o primeiro compromisso profissional no exterior, o livro nas livrarias, a abertura da empresa. Engraçado, também me senti mais adulta o dia em que descobri quais os dias do lixeiro e assumi a responsabilidade de pôr o lixo pra fora no momento certo.
Outro dia encontrei um bilhetinho em minha geladeira: "Gosto muito de você e queria saber se você quer ser minha madrinha, vou continuar gostando mesmo se você não quiser, beijos". Obra da Letícia, 12 anos, moradora de uma periferia miserável.
Difícil conter as lágrimas. Difícil não lembrar da merda social que é esse país, da passividade de uma classe média egocêntrica, egoísta e insensível. Dos seres humanos desperdiçados em meio à indignidade de favelas e invasões.
Bateu um medo de ser igual à maioria inerte. O medo de não estar à altura de minha responsabilidade, da responsabilidade que deveria ser de todos. A certeza de que a Letícia merece muito, muito, muito. Muito mais do que poderei dar.
De qualquer maneira, paúra à parte, vamos lá. Pelo menos minha parte vou tentar cumprir. Já é bem mais do que a maioria faz.
O rapto do Menino Jesus
Hoje de manhã aproveitei a caminhada e entrei na igreja para pensar um pouco na vida. Tinha um presépio armado e parei pra olhar. Figuras bonitas, muitas flores, provavelmente colocadas por fiéis, dois embrulhos de papel que talvez fossem oferendas e... Jesus! Quer dizer: cadê Jesus?! A manjedoura estava vazia. Maria, José e um pastorzinho tocador de flauta olhavam fixamente o lugar onde deveria estar deitadinho o salvador recém-nascido e onde não havia nada. Era como se estivessem pasmos, não acreditando no que viam. Ou no que não viam. Eu também não acreditei. Desviei os olhos, olhei de novo, vai que deu um curto no meu nervo óptico, mas não, nada de errado com minhas sinapses, o Filho de Deus NÃO ESTAVA LÁ! Raios. Saí em busca de algum funcionário da igreja. Lá fora achei um: “Desculpe, senhor, por que é que o Menino Jesus não está no lugar?" "Ele tá lá" "Não tá. A manjedoura está vazia" "Ah, fala com o guarda" "Mas o senhor não é guarda?" "Tem um guarda dentro na igreja" "Não tem, eu não vi" "Tem sim, procura lá" Ele deve ter pensado que eu era meio idiota: não via Jesus, não via guarda... Voltei lá e por fim achei o guarda num canto. E ele resolveu o mistério: ninguém tinha levado embora o Redentor, não. Já tinha acontecido antes, sim, mas dessa vez era só o costume da igreja: o Menino Jesus é colocado no presépio quando montam, mas depois eles tiram. Só voltam a colocar à meia-noite do Natal. Faz sentido, não faz? Simbologia do nascimento, e enquanto isso Maria, José, o pastor, você e eu ficamos olhando e venerando um leito vazio. Bonito. Uma prova de fé por parte dos paroquianos.
Peixe podre
Li no jornal agora há pouco: 99,9998% do iG pertencem à iG Cayman, com base nas ilhas Cayman, que são muito mais do que um idílico arquipélago tropical. Algo fede muito nessa história. Gente honesta não costuma ter empresas em paraísos fiscais.
Noite de autógrafos
Giulia Moon e eu estaremos autografando nossos livros Luar de vampiros e O vampiro de cada um neste domingo, dia 21, no Absolute Beginners, que vai rolar no DJ Club, na al. Franca, 241 Jardins (perto do metrô Trianon-Masp), a partir das 18:30 - até 19:15 a entrada é livre!). O som é anos 80, com destaque para o gótico. O lugar é muito bacana. Apareçam por lá. Não vão se arrepender!
Beijos e queijos, e desde já cuidado pra não se descontrolarem na comilança de fim de ano!
Martha Argel
O fim da infância
Nesta nossa era de adultescência hiperprolongada, a maturidade vem aos poucos, principalmente pra quem é como eu, profissional liberal do gênero feminino, descasada, sem filhos e aspirante a uma vida econômica próspera o suficiente para garantir ao menos a grana pro asilo na velhice. Eventos únicos marcam esse processo: a morte do pai, o casamento, a separação, o primeiro compromisso profissional no exterior, o livro nas livrarias, a abertura da empresa. Engraçado, também me senti mais adulta o dia em que descobri quais os dias do lixeiro e assumi a responsabilidade de pôr o lixo pra fora no momento certo.
Outro dia encontrei um bilhetinho em minha geladeira: "Gosto muito de você e queria saber se você quer ser minha madrinha, vou continuar gostando mesmo se você não quiser, beijos". Obra da Letícia, 12 anos, moradora de uma periferia miserável.
Difícil conter as lágrimas. Difícil não lembrar da merda social que é esse país, da passividade de uma classe média egocêntrica, egoísta e insensível. Dos seres humanos desperdiçados em meio à indignidade de favelas e invasões.
Bateu um medo de ser igual à maioria inerte. O medo de não estar à altura de minha responsabilidade, da responsabilidade que deveria ser de todos. A certeza de que a Letícia merece muito, muito, muito. Muito mais do que poderei dar.
De qualquer maneira, paúra à parte, vamos lá. Pelo menos minha parte vou tentar cumprir. Já é bem mais do que a maioria faz.
O rapto do Menino Jesus
Hoje de manhã aproveitei a caminhada e entrei na igreja para pensar um pouco na vida. Tinha um presépio armado e parei pra olhar. Figuras bonitas, muitas flores, provavelmente colocadas por fiéis, dois embrulhos de papel que talvez fossem oferendas e... Jesus! Quer dizer: cadê Jesus?! A manjedoura estava vazia. Maria, José e um pastorzinho tocador de flauta olhavam fixamente o lugar onde deveria estar deitadinho o salvador recém-nascido e onde não havia nada. Era como se estivessem pasmos, não acreditando no que viam. Ou no que não viam. Eu também não acreditei. Desviei os olhos, olhei de novo, vai que deu um curto no meu nervo óptico, mas não, nada de errado com minhas sinapses, o Filho de Deus NÃO ESTAVA LÁ! Raios. Saí em busca de algum funcionário da igreja. Lá fora achei um: “Desculpe, senhor, por que é que o Menino Jesus não está no lugar?" "Ele tá lá" "Não tá. A manjedoura está vazia" "Ah, fala com o guarda" "Mas o senhor não é guarda?" "Tem um guarda dentro na igreja" "Não tem, eu não vi" "Tem sim, procura lá" Ele deve ter pensado que eu era meio idiota: não via Jesus, não via guarda... Voltei lá e por fim achei o guarda num canto. E ele resolveu o mistério: ninguém tinha levado embora o Redentor, não. Já tinha acontecido antes, sim, mas dessa vez era só o costume da igreja: o Menino Jesus é colocado no presépio quando montam, mas depois eles tiram. Só voltam a colocar à meia-noite do Natal. Faz sentido, não faz? Simbologia do nascimento, e enquanto isso Maria, José, o pastor, você e eu ficamos olhando e venerando um leito vazio. Bonito. Uma prova de fé por parte dos paroquianos.
Peixe podre
Li no jornal agora há pouco: 99,9998% do iG pertencem à iG Cayman, com base nas ilhas Cayman, que são muito mais do que um idílico arquipélago tropical. Algo fede muito nessa história. Gente honesta não costuma ter empresas em paraísos fiscais.
Noite de autógrafos
Giulia Moon e eu estaremos autografando nossos livros Luar de vampiros e O vampiro de cada um neste domingo, dia 21, no Absolute Beginners, que vai rolar no DJ Club, na al. Franca, 241 Jardins (perto do metrô Trianon-Masp), a partir das 18:30 - até 19:15 a entrada é livre!). O som é anos 80, com destaque para o gótico. O lugar é muito bacana. Apareçam por lá. Não vão se arrepender!
Beijos e queijos, e desde já cuidado pra não se descontrolarem na comilança de fim de ano!
Martha Argel
segunda-feira, 15 de dezembro de 2003
Bom dia ensolarado de verão. A manhã luminosa sinaliza que o dia vai ser fogo. Ontem, voltando pra casa depois de um delicioso buffet no Viena, a Giu e eu não acreditamos nos termômetros que marcavam 34 graus. Todos errados, reclamamos. Mas chegando em casa chequei meu próprio termômetro, mais confiável que as geringonças eletrônicas da prefeitura, e era isso mesmo! Affff!
Faz tempo que não posto. No que tenho ocupado meus dias? Muito trabalho, viagens a campo, reuniões, eventos de todos os tipos, contatos literários a rodo, minhas listas de discussão, a burocracia que vem associada à atividade profissional intensa, preparativos para a ida ao Sul Distante, compromissos com amigos.
No meio de tudo isso, tento escrever um pouco. Só de pensar que não vou poder escrever durante todo o mês de janeiro, já me arrependo um pouco de ter inventado a ida à Patagônia. Mas é sempre assim, já acostumei. Vou ficar cada vez mais irritada e mal-humorada com "essa viagem idiota" até o momento de botar a mochila nas costas e trancar a casa. A partir daí, acabam-se os problemas, os filhos-da-puta sacanas e traiçoeiros desaparecem da minha vida, os contos inacabados tornam-se irrelevantes e o aluvião de preocupações que encontrarei ao voltar deixa de merecer qualquer impulso elétrico do mais desprezível neurônio de meu cérebro.
E antes que eu esqueça, novidade:
Já está disponível o FicZine, uma publicação criada em parceria da escritora Giulia Moon e que traz, nesta edição n. 1, três contos de Natal.
Pra quem não conhece a Giulia, é autora de Luar de vampiros (Scortecci, 2003) e tem uma escrita elegante e grande versatilidade. Seu conto Pé de moleque em dezembro traz uma versão bem brasileira do Natal, misturando com muita sensibilidade Fantasia e Humor.
Nosso convidado deste número é Rogério Amaral de Vasconcellos. Natal no Olimpo é um conto de Ficção Científica -- como é o Natal num planeta onde não existem calendários?
E, completando esta edição, meu conto O Natal de Igor, uma fantasia em que até o humilde serviçal de um estranho nobre sonha com sua noite feliz...
Vocês podem baixar o arquivo em pdf do FicZine a partir do site da Giulia, http://www.giuliamoon.com.br, no link de Downloads.
E logo, logo, meu novo site, agora em domínio próprio, vai estar no ar. Aguardem!!!
É isso aí. Aproveitem bem seu tempo. Façam coisas boas pra vocês e pros outros.
Martha Argel
Faz tempo que não posto. No que tenho ocupado meus dias? Muito trabalho, viagens a campo, reuniões, eventos de todos os tipos, contatos literários a rodo, minhas listas de discussão, a burocracia que vem associada à atividade profissional intensa, preparativos para a ida ao Sul Distante, compromissos com amigos.
No meio de tudo isso, tento escrever um pouco. Só de pensar que não vou poder escrever durante todo o mês de janeiro, já me arrependo um pouco de ter inventado a ida à Patagônia. Mas é sempre assim, já acostumei. Vou ficar cada vez mais irritada e mal-humorada com "essa viagem idiota" até o momento de botar a mochila nas costas e trancar a casa. A partir daí, acabam-se os problemas, os filhos-da-puta sacanas e traiçoeiros desaparecem da minha vida, os contos inacabados tornam-se irrelevantes e o aluvião de preocupações que encontrarei ao voltar deixa de merecer qualquer impulso elétrico do mais desprezível neurônio de meu cérebro.
E antes que eu esqueça, novidade:
Já está disponível o FicZine, uma publicação criada em parceria da escritora Giulia Moon e que traz, nesta edição n. 1, três contos de Natal.
Pra quem não conhece a Giulia, é autora de Luar de vampiros (Scortecci, 2003) e tem uma escrita elegante e grande versatilidade. Seu conto Pé de moleque em dezembro traz uma versão bem brasileira do Natal, misturando com muita sensibilidade Fantasia e Humor.
Nosso convidado deste número é Rogério Amaral de Vasconcellos. Natal no Olimpo é um conto de Ficção Científica -- como é o Natal num planeta onde não existem calendários?
E, completando esta edição, meu conto O Natal de Igor, uma fantasia em que até o humilde serviçal de um estranho nobre sonha com sua noite feliz...
Vocês podem baixar o arquivo em pdf do FicZine a partir do site da Giulia, http://www.giuliamoon.com.br, no link de Downloads.
E logo, logo, meu novo site, agora em domínio próprio, vai estar no ar. Aguardem!!!
É isso aí. Aproveitem bem seu tempo. Façam coisas boas pra vocês e pros outros.
Martha Argel
segunda-feira, 8 de dezembro de 2003
Maluquice.
Parece que todos meus clientes resolveram acordar de uma hora pra outra. O que está aparecendo de trabalho é brincadeira. Se neste país trabalhar deixasse a gente rica, eu já tava milionária.
Infelizmente, o meio mais fácil não só de ganhar dinheiro, mas também de fazer fama, é sendo filho da puta. Hoje me liga uma amiga pra me contar algo que eu não sabia e que me deixou furiosa e indignada. Palavras dela: "esse seu amigo é um filho da puta, o que ele fez com você é antiético, mas pode deixar que nunca mais chamo ele pra trabalho nenhum, porque com esse sujeito eu não quero mais contato". Ok. Beleza. Já começa a pagar por ser mau-caráter.
E as coisas que acontecem comigo! Acabo de receber um e-mail desesperado, perguntando se eu teria possibilidade de ir como ornitoguia para a Antártida de 10 a 20... de dezembro!!! Hahaha, depois de amanhã, acha??? Porra, porque não me chamam pra ir em janeiro? Afinal, vou estar lá pertinho, em plena Patagônia argentina, durante todo o mês.
É isso aí. Em breve vou estar de página nova na rede, com meu próprio domínio. Depois eu posto a URL aqui.
Ah, sim, estou reativando minha lista de notícias, onde mando textos meus e novidades sobre lançamentos e noites de autógrafos:
http://br.groups.yahoo.com/group/marthaargel/
Se alguém aí quiser se inscrever, a honra será toda minha!
abraços e até não sei quando!
Martha Argel
Parece que todos meus clientes resolveram acordar de uma hora pra outra. O que está aparecendo de trabalho é brincadeira. Se neste país trabalhar deixasse a gente rica, eu já tava milionária.
Infelizmente, o meio mais fácil não só de ganhar dinheiro, mas também de fazer fama, é sendo filho da puta. Hoje me liga uma amiga pra me contar algo que eu não sabia e que me deixou furiosa e indignada. Palavras dela: "esse seu amigo é um filho da puta, o que ele fez com você é antiético, mas pode deixar que nunca mais chamo ele pra trabalho nenhum, porque com esse sujeito eu não quero mais contato". Ok. Beleza. Já começa a pagar por ser mau-caráter.
E as coisas que acontecem comigo! Acabo de receber um e-mail desesperado, perguntando se eu teria possibilidade de ir como ornitoguia para a Antártida de 10 a 20... de dezembro!!! Hahaha, depois de amanhã, acha??? Porra, porque não me chamam pra ir em janeiro? Afinal, vou estar lá pertinho, em plena Patagônia argentina, durante todo o mês.
É isso aí. Em breve vou estar de página nova na rede, com meu próprio domínio. Depois eu posto a URL aqui.
Ah, sim, estou reativando minha lista de notícias, onde mando textos meus e novidades sobre lançamentos e noites de autógrafos:
http://br.groups.yahoo.com/group/marthaargel/
Se alguém aí quiser se inscrever, a honra será toda minha!
abraços e até não sei quando!
Martha Argel
quarta-feira, 26 de novembro de 2003
Lindo sol lá fora. Vocês já perceberam que é época de floração das camélias? O perfume delas é algo extraordinário, faz pensar em palácios e jardins franceses e rendas e um entardecer suave.
O perfume das camélias tem me ajudado nestes dias em que ando nervosa, irritada e disposta a comprar briga por todo e qualquer motivo. Por sorte tenho ouvido muita gente amiga me dizendo "calma" ou "cautela" ou "vai devagar" ou "não vale a pena". Esses amigos estão certos: existem pessoas demais no mundo que não valem a pena. A grande catástrofe é ter uma pessoa que não vale a pena num cargo onde ela pode colocar as manguinhas de fora, tomar decisões, dar canetadas e atrapalhar a vida de gente que vale. A expressão "abuso de autoridade" tem povoado minhas conversas nos últimos dias.
E também "cérebro de minhoca". Esta ofensa aos pobres anelídeos oligoquetas me faz rir e diminui um pouco a tensão. Me lembra algo que li, há décadas, no livro "A ilha" de Aldous Huxley. Não vou ocupar espaço contando. Leiam o livro e descubram.
Nesta minha fase de indignação com a palermice de muitos que me cercam, o que segura a barra é a contagem regressiva. Cada dia que passa é um dia a menos para A Viagem. Os Preparativos avançam, pois uma Viagem como essa deve ser bem pensada. Ontem gastei uma grana violenta (do tipo quatro dígitos) e cometer essa audácia me fez bem, muito bem.
Sem esquecer de agradecer a quem deixa comentários (que recebo com carinho e leio com atenção, embora nem sempre responda) despeço-me, lembrando a todos que a vida é curta demais pra gente perder com pessoas chatas e bobas e que, coitadas, não sabem o que fazem.
Beijos e queijos e muito suco de cupuaçu a todos.
Martha Argel
O perfume das camélias tem me ajudado nestes dias em que ando nervosa, irritada e disposta a comprar briga por todo e qualquer motivo. Por sorte tenho ouvido muita gente amiga me dizendo "calma" ou "cautela" ou "vai devagar" ou "não vale a pena". Esses amigos estão certos: existem pessoas demais no mundo que não valem a pena. A grande catástrofe é ter uma pessoa que não vale a pena num cargo onde ela pode colocar as manguinhas de fora, tomar decisões, dar canetadas e atrapalhar a vida de gente que vale. A expressão "abuso de autoridade" tem povoado minhas conversas nos últimos dias.
E também "cérebro de minhoca". Esta ofensa aos pobres anelídeos oligoquetas me faz rir e diminui um pouco a tensão. Me lembra algo que li, há décadas, no livro "A ilha" de Aldous Huxley. Não vou ocupar espaço contando. Leiam o livro e descubram.
Nesta minha fase de indignação com a palermice de muitos que me cercam, o que segura a barra é a contagem regressiva. Cada dia que passa é um dia a menos para A Viagem. Os Preparativos avançam, pois uma Viagem como essa deve ser bem pensada. Ontem gastei uma grana violenta (do tipo quatro dígitos) e cometer essa audácia me fez bem, muito bem.
Sem esquecer de agradecer a quem deixa comentários (que recebo com carinho e leio com atenção, embora nem sempre responda) despeço-me, lembrando a todos que a vida é curta demais pra gente perder com pessoas chatas e bobas e que, coitadas, não sabem o que fazem.
Beijos e queijos e muito suco de cupuaçu a todos.
Martha Argel
sexta-feira, 21 de novembro de 2003
Bom dia a todos. Na madrugada chove, e o sabiá canta lá fora. Já não canta como há um mês. A estação reprodutiva vai bem avançada, e os machos não precisam mais conquistar fêmeas, e sim criar os filhotes, que há vários dias começaram a sair dos ninhos.
Quais as cenas mais horripilantes em que vocês pensam quando alguém diz cemitério? Pois faço aqui um breve relato de minha recente experiência.
Ontem visitei, a trabalho, um cemitério num município da Grande São Paulo. Cemitério-parque, bonito, florido. Ladeando cada lápide, dois tubos enterrados no chão, suponho que de PVC, com cerca de dez centímetros de diâmetro e uns vinte de profundidade, fechados no fundo e destinados a servirem de vasos. Na maioria das vezes, porém, servem como armadilhas. Vocês calculam a quantidade de baratas que existem num cemitério?! Pois é. Adivinhem o que elas comem. A gente não percebe, mas os bichinhos infestam o lugar. Devem sair de noite, passeiam por toda parte e... caem nos tubos e não conseguem mais sair, pois os tubos são lisos e altos. Minha sócia Cli e eu, morbidamente interessadas, examinamos dúzias de armadilhas. Em muitas, havia uma camada compacta de uns cinco centímetros de espessura, dezenas de baratas movendo-se frenéticas, umas sobre as outras, agitadíssimas, tentando sair desesperadas. Algumas tinhas as asas roídas, indicando que, quando a fome aperta, elas se comem entre si. Nalguns tubos, a água de chuva acumulada transformava-se num caldo espesso de baratas podres. Vimos tanta barata que chegou a hora em que eu tinha a nítida impressão de que elas estavam subindo por dentro da minha calça. Aterrorizante.
Mas outra coisa também me horrorizou. Estavam sendo feitos quatro enterros. A maioria de rapazes novos. "É o mais comum por aqui, rapazinhos mortos em violência ou acidentes", esclareceu nosso contratante. O "por aqui" significa a periferia de uma cidade pobre, violenta e populosa. Dois enterros eram de jovens mortos numa briga de gangues. Mortos por engano. Os cortejos me assustaram. Muitos rapazes, provavelmente as gangues, mas poucas lágrimas. Ali a morte é banal. O crime é aceitável e a violência uma necessidade. Pobre Brasil. Construído com a ajuda de todos aqueles que fumam unzinho no fim da tarde, "pra relaxar", ou dão uma cheiradinha antes da festa, "pra ficar legal". Vão todos à merda.
Bom, menos papo e mais trabalho. Abraços, aproveitem o dia e levem um guarda-chuva, porque parece que vai chover.
Martha Argel
Quais as cenas mais horripilantes em que vocês pensam quando alguém diz cemitério? Pois faço aqui um breve relato de minha recente experiência.
Ontem visitei, a trabalho, um cemitério num município da Grande São Paulo. Cemitério-parque, bonito, florido. Ladeando cada lápide, dois tubos enterrados no chão, suponho que de PVC, com cerca de dez centímetros de diâmetro e uns vinte de profundidade, fechados no fundo e destinados a servirem de vasos. Na maioria das vezes, porém, servem como armadilhas. Vocês calculam a quantidade de baratas que existem num cemitério?! Pois é. Adivinhem o que elas comem. A gente não percebe, mas os bichinhos infestam o lugar. Devem sair de noite, passeiam por toda parte e... caem nos tubos e não conseguem mais sair, pois os tubos são lisos e altos. Minha sócia Cli e eu, morbidamente interessadas, examinamos dúzias de armadilhas. Em muitas, havia uma camada compacta de uns cinco centímetros de espessura, dezenas de baratas movendo-se frenéticas, umas sobre as outras, agitadíssimas, tentando sair desesperadas. Algumas tinhas as asas roídas, indicando que, quando a fome aperta, elas se comem entre si. Nalguns tubos, a água de chuva acumulada transformava-se num caldo espesso de baratas podres. Vimos tanta barata que chegou a hora em que eu tinha a nítida impressão de que elas estavam subindo por dentro da minha calça. Aterrorizante.
Mas outra coisa também me horrorizou. Estavam sendo feitos quatro enterros. A maioria de rapazes novos. "É o mais comum por aqui, rapazinhos mortos em violência ou acidentes", esclareceu nosso contratante. O "por aqui" significa a periferia de uma cidade pobre, violenta e populosa. Dois enterros eram de jovens mortos numa briga de gangues. Mortos por engano. Os cortejos me assustaram. Muitos rapazes, provavelmente as gangues, mas poucas lágrimas. Ali a morte é banal. O crime é aceitável e a violência uma necessidade. Pobre Brasil. Construído com a ajuda de todos aqueles que fumam unzinho no fim da tarde, "pra relaxar", ou dão uma cheiradinha antes da festa, "pra ficar legal". Vão todos à merda.
Bom, menos papo e mais trabalho. Abraços, aproveitem o dia e levem um guarda-chuva, porque parece que vai chover.
Martha Argel
quinta-feira, 20 de novembro de 2003
Bons dias.
Está no ar, no site Planeta Zeist, meu conto Incompatibilidade Imortal. O site é dedicado a fanfics sobre o seriado Highlander, do qual sou fã de carteirinha. Pra quem não sabe, fanfic é a ficção escrita por fãs, que pegam emprestado personagens e situações de seus livros, seriados e filmes favoritos e criam suas próprias tramas. Meu conto é o que se chama de cross-over, que é o cruzamento de dois universos ficcionais diferentes; nele, aproveito para misturar o universo de Highlander com outro universo que os leitores de meus livros conhecem muito bem...
O site é mantido por minha amiga Aka Draven MacWacko, do fã-clube de Highlander no Brasil. Você pode acessar diretamente meu conto clicando aqui. Mas não deixe de ler os contos dos outros autores, hein?
Agora vou andando. Hoje tem trabalho de campo. Coisinha básica: um cemitério. Almas penadas e alminhas emplumadas.
Aproveitem bem o dia.
Martha Argel
Está no ar, no site Planeta Zeist, meu conto Incompatibilidade Imortal. O site é dedicado a fanfics sobre o seriado Highlander, do qual sou fã de carteirinha. Pra quem não sabe, fanfic é a ficção escrita por fãs, que pegam emprestado personagens e situações de seus livros, seriados e filmes favoritos e criam suas próprias tramas. Meu conto é o que se chama de cross-over, que é o cruzamento de dois universos ficcionais diferentes; nele, aproveito para misturar o universo de Highlander com outro universo que os leitores de meus livros conhecem muito bem...
O site é mantido por minha amiga Aka Draven MacWacko, do fã-clube de Highlander no Brasil. Você pode acessar diretamente meu conto clicando aqui. Mas não deixe de ler os contos dos outros autores, hein?
Agora vou andando. Hoje tem trabalho de campo. Coisinha básica: um cemitério. Almas penadas e alminhas emplumadas.
Aproveitem bem o dia.
Martha Argel
quarta-feira, 19 de novembro de 2003
Boa tarde a todos.
Só pra dizer que este blog NÃO está morto.
Pessoal que deixou comentário, obrigada pela visita e pela gentileza. Quem não deixou, idem.
Bem, vejamos, um breve resumo dos últimos dias (mais de meio mês? vixe!), usando o muito útil conceito das palavras-chave.
Viagem: sol, paisagens, céu azul, estradas sem fim, bons amigos, maria-mole, rios e cachoeira, leituras, gente gentil, maria-mole, varanda & pôres-de-sol, cidadezinhas acolhedoras, paz, maria-mole, pequenas compras fúteis e divertidas, cachorrinhos, muita paz.
Pós-viagem: muito trabalho, viagens a campo, reuniões produtivas (e como é BOM sentir reconhecida sua competência), agenda lotada, contos terminados.
E para hoje, nada de palavras-chave: trabalho novo, e desci a serra por essa maravilha que é a Nova Imigrantes. Sempre é bom ver o mar, sempre é bom saber que tua participação vai ajudar a vida de muita gente.
Tanta coisa que tenho pensado em postar aqui, mas não tenho tido oportunidade. Estou correndo contra o tempo: teve início a contagem regressiva para a próxima Grande Viagem. Mal posso esperar que janeiro chegue.
Cuidem-se, e não se esqueçam de construir seus Grandes Planos para o ano que está chegando.
Martha Argel
Só pra dizer que este blog NÃO está morto.
Pessoal que deixou comentário, obrigada pela visita e pela gentileza. Quem não deixou, idem.
Bem, vejamos, um breve resumo dos últimos dias (mais de meio mês? vixe!), usando o muito útil conceito das palavras-chave.
Viagem: sol, paisagens, céu azul, estradas sem fim, bons amigos, maria-mole, rios e cachoeira, leituras, gente gentil, maria-mole, varanda & pôres-de-sol, cidadezinhas acolhedoras, paz, maria-mole, pequenas compras fúteis e divertidas, cachorrinhos, muita paz.
Pós-viagem: muito trabalho, viagens a campo, reuniões produtivas (e como é BOM sentir reconhecida sua competência), agenda lotada, contos terminados.
E para hoje, nada de palavras-chave: trabalho novo, e desci a serra por essa maravilha que é a Nova Imigrantes. Sempre é bom ver o mar, sempre é bom saber que tua participação vai ajudar a vida de muita gente.
Tanta coisa que tenho pensado em postar aqui, mas não tenho tido oportunidade. Estou correndo contra o tempo: teve início a contagem regressiva para a próxima Grande Viagem. Mal posso esperar que janeiro chegue.
Cuidem-se, e não se esqueçam de construir seus Grandes Planos para o ano que está chegando.
Martha Argel
sábado, 1 de novembro de 2003
Dia de luz, manhã de sol...
Gafanhoto
Agora há pouco, vinha eu pela rua, caminhando distraída de volta do supermercado e meditando sobre questões profundas como o fato dos rolos de papel higiênico terem encurtado de 40 para 30 metros e os pacotes de absorventes trazerem 8 em vez de 10 unidades, quando escuto "Psiu, moça". Olhei. Um vigia de rua, sentado numa cadeira. "Por favor", disse ele, me chamando com a mão. Ué. Achei que ele ia pedir as horas. "Pois não?" "A senhora é discípula de Shao-Lin?" Hã, como é que é?! "Como assim?" Aí ele apontou para o dragão de estanho que eu trazia ao pescoço. "É que a senhora usa isso aí" ele apontou de novo "e nos filmes os discípulos de Shao-Lin usam uma coisa parecida. A senhora é budista?". Essa eu nunca tinha ouvido! Já me perguntaram se eu era bruxa (uma vez em que usava um pentagrama) e vampira de verdade (numa noite de autógrafos). Uma outra vez, enquanto eu observava aves, uma mocinha me perguntou, com olhos arregalados e assombro na voz, "a senhora é... cientista?!", e só faltou me cutucar com o dedo pra comprovar que eu era de verdade. Mas nunca tinham me parado na rua pra perguntar se era budista! E antes de eu ir embora, inconformado, o rapaz ainda tentou de novo: "Mas a senhora luta, né?".
Ritual noturno
Ontem foi noite de Halloween. Não fui a nenhuma das festas que pulularam por aí, em parte por um certo desencontro e falta de comunicação. Mas principalmente porque, em homenagem à data e como boa escritora de histórias macabras, tive de participar de um ritual secreto. Algo muito mais sério que uma festa. Só para iniciados. Éramos três durante a cerimônia, realizada em um recinto especial, na calada da noite, em torno de uma mesa especialmente preparada para a ocasião. Sobre a mesa, a vítima ritual, coberta por rubro e vital líquido em homenagem a uma entidade antiqüíssima e muito cultuada, proveniente da península itálica. Num ato de sublime abnegação, comungamos e compartilhamos nossa vítima, por nós consumida até que, como exigia o ritual, não restasse dela vestígio algum. Foi uma cerimônia maravilhosa, que nos deixou num estado de plena satisfação, tão total que sentíamos como se não coubéssemos mais dentro de nós mesmos. Vocês deveriam tentar. Todos nós, adoradores desse entidade divina, nos sentimos felizes em nossa devoção. Seu nome, glorioso, magnífico, único e redentor, é... Parmeggiana!
Hasta la vista, babies!
Para este blog não vai fazer muita diferença porque à vezes passo quase duas semanas sem postar, mas estou saindo para breves férias numa cidadezinha pacata e bonita. Estarei fora do ar. Lá não tem internet. Deixo aqui os problemas, as frustrações, os incompetentes, mal-educados e filhos da puta com que sou forçada a conviver e interagir. Os amigos e as coisas boas carrego sempre comigo, na alma e no coração. Assim como carrego os sonhos e os planos para os próximos meses.
Fiquem bem, acalentem e alimentem seus ideais.
Martha Argel
Gafanhoto
Agora há pouco, vinha eu pela rua, caminhando distraída de volta do supermercado e meditando sobre questões profundas como o fato dos rolos de papel higiênico terem encurtado de 40 para 30 metros e os pacotes de absorventes trazerem 8 em vez de 10 unidades, quando escuto "Psiu, moça". Olhei. Um vigia de rua, sentado numa cadeira. "Por favor", disse ele, me chamando com a mão. Ué. Achei que ele ia pedir as horas. "Pois não?" "A senhora é discípula de Shao-Lin?" Hã, como é que é?! "Como assim?" Aí ele apontou para o dragão de estanho que eu trazia ao pescoço. "É que a senhora usa isso aí" ele apontou de novo "e nos filmes os discípulos de Shao-Lin usam uma coisa parecida. A senhora é budista?". Essa eu nunca tinha ouvido! Já me perguntaram se eu era bruxa (uma vez em que usava um pentagrama) e vampira de verdade (numa noite de autógrafos). Uma outra vez, enquanto eu observava aves, uma mocinha me perguntou, com olhos arregalados e assombro na voz, "a senhora é... cientista?!", e só faltou me cutucar com o dedo pra comprovar que eu era de verdade. Mas nunca tinham me parado na rua pra perguntar se era budista! E antes de eu ir embora, inconformado, o rapaz ainda tentou de novo: "Mas a senhora luta, né?".
Ritual noturno
Ontem foi noite de Halloween. Não fui a nenhuma das festas que pulularam por aí, em parte por um certo desencontro e falta de comunicação. Mas principalmente porque, em homenagem à data e como boa escritora de histórias macabras, tive de participar de um ritual secreto. Algo muito mais sério que uma festa. Só para iniciados. Éramos três durante a cerimônia, realizada em um recinto especial, na calada da noite, em torno de uma mesa especialmente preparada para a ocasião. Sobre a mesa, a vítima ritual, coberta por rubro e vital líquido em homenagem a uma entidade antiqüíssima e muito cultuada, proveniente da península itálica. Num ato de sublime abnegação, comungamos e compartilhamos nossa vítima, por nós consumida até que, como exigia o ritual, não restasse dela vestígio algum. Foi uma cerimônia maravilhosa, que nos deixou num estado de plena satisfação, tão total que sentíamos como se não coubéssemos mais dentro de nós mesmos. Vocês deveriam tentar. Todos nós, adoradores desse entidade divina, nos sentimos felizes em nossa devoção. Seu nome, glorioso, magnífico, único e redentor, é... Parmeggiana!
Hasta la vista, babies!
Para este blog não vai fazer muita diferença porque à vezes passo quase duas semanas sem postar, mas estou saindo para breves férias numa cidadezinha pacata e bonita. Estarei fora do ar. Lá não tem internet. Deixo aqui os problemas, as frustrações, os incompetentes, mal-educados e filhos da puta com que sou forçada a conviver e interagir. Os amigos e as coisas boas carrego sempre comigo, na alma e no coração. Assim como carrego os sonhos e os planos para os próximos meses.
Fiquem bem, acalentem e alimentem seus ideais.
Martha Argel
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